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06 Set 2020 - 11:30

Família contrata legista do caso PC Farias e laudo questiona conclusão da polícia

família da menina que é acusada na morte da adolescente Isabele Guimarães Ramos, de 14 anos, contratou o médico legista e professor da Unicamp Fortunato Antônio Badan Palhares para atuar no caso. Um relatório assinado por ele consta em pedido enviado pela defesa para questionar a conclusão do inquérito policial e tenta reverter a acusação de homicídio doloso, com intenção de matar, que pesa sobre a garota.

As conclusões do relatório contratado pela família buscam dar lastro à tese de que o disparo contra Isabele aconteceu vindo de fora do banheiro e que foi acidental, tendo ocorrido quando a amiga tentava arrumar o estojo, ou case, das armas na mão depois de deixá-las cair sem querer.

 

Badan Palhares ficou conhecido nacionalmente por sua atuação no “Caso PC Farias”, no qual foi investigada a morte de Paulo César Farias, ex-tesoureiro do ex-presidente e atual senador Fernando Collor de Mello, ocorrida em 1996. Um laudo produzido pelo legista da Unicamp concluiu que PC foi morto pela namorada, Suzana Marcolino, que se suicidou em seguida.

A conclusão foi questionada e diversas falhas foram apontadas, incluindo erro na altura de Suzana, o que indicaria que o que aconteceu, na verdade, foi uma execução de PC e da namorada. Ele estava envolvido em casos de corrupção de Collor. Outras testemunhas também morreram de maneira misteriosa nos anos seguintes.

O lado de Badan Palhares no caso Isabele é de 18 de agosto e conclui “que o laudo pericial de local não revela efetivamente os acontecimentos que resultaram na morte de uma jovem e a forma real de como o fato ocorreu".

O legista foi procurado pelo pai da garota acusada e fez sua análise a partir dos laudos necroscópico, do confronto de armas e o do local do evento, além de depoimentos, gravações e vídeos, além de cópias do inquérito da Delegacia Especializada do Adolescente (DEA).

Badan Palhares registra que a narrativa contada pelo pai de que mexeu o corpo da adolescente para fazer a massagem cardíaca orientada pelo Samu não consta em nenhum dos documentos recebidos por ele. O médico cita que teve acesso ao relatório da perícia do local.

"No capítulo Histórico, o perito não faz qualquer referência de que o local por ele examinado e documentado presencialmente, não estava mais preservado como acima deixo consignado, muito embora em outro momento faça breve comentário a respeito", afirma.

Para o legista, os vestígios encontrados pelo perito “passaram a ser apresentados no laudo, sem levar em consideração nada mais nada menos que o quadro estático encontrado".

documento, qualquer menção de ter levado em consideração os procedimentos ocorridos antes do mesmo lá chegar. Ou seja, sua presença segundo consta do lado, foi marcada com mais de 90 minutos após o evento ter ocorrido. Segundo o BO que está consignado no ofício do DHPP o horário que a polícia foi acionada como sendo: 22h34 e o perito ter chegado ao local por volta das 23h50", afirma.

O entendimento do parecer é que "os indícios relatados não refletem ser os existentes no momento da morte dessa menor". Afirma que o perito não levou em contato os movimentos ocorridos no local durante a manobra de tentativa de reanimação da vítima e que até aquele momento o pai da atiradora "não tinha conhecimento de que tinha sido um disparo de arma de fogo o causador do fato".

"As manchas existentes no solo, ao nível da entrada do banheiro, assim como as existentes na parte externa da porta, foram produzidas no mesmo momento, ou seja, logo após o disparo e foram as primeiras manchas a se formarem nesse caso", afirma.

“EM VISTA DESSAS INCOERÊNCIAS ENCONTRADAS NA INTERPRETAÇÃO DO PERITO DE LOCAL E COM AS ANOTAÇÕES QUE ACABO DE APRESENTAR, AS REFERIDAS DESCRIÇÕES NO LAUDO, POR SI SÓ, DESCARACTERIZAM O RESULTADO OBTIDO PELO PERITO DE LOCAL”Fortunato Badan PalharesHá um "discreto intervalo entre essas manchas e as que estão ao lado das pernas, abaixo e entre as pernas da vítima". "São manchas que possuem o mesmo padrão e evolução temporal e que formam uma trilha representativa da deslocação da vítima, após o ferimento moral, iniciando-se na entrada do banheiro e não dentro dele, conforme o laudo oficial descreve".

O médico afirma que parte das manchas que se formaram no chão são encobertas pelas pernas da vítima, o que indicaria que o corpo foi rolado até ali depois do tiro.

"As manchas que se apresentam na face anterior das pernas, próximo aos joelhos, são de movimentos posteriores, essas sim podem ter ocorrido quando houve flexão das pernas que antecedeu a queda de costas e não guardam relação sequencial com as que estão no chão, mas podem também ser resultados de movimentos de quem atendia a vítima que, inadvertidamente, ao se movimentar, deixou as referidas manchas, assim como outras existentes no local", diz o documento.

O atirador, pela conclusão do legista, deveria estar "situado ao nível da porta e não dentro do banheiro". Ele cita que o estojo estava fora do banheiro e manchas na porta que batem com as manchas do chão do momento do tiro. Há que se ponderar que as investigações da Polícia Civil apontam que a cápsula da bala que atravessou a cabeça de Isabele foi retirada da cena do crime, possivelmente pelo pai da atiradora.

"Em vista dessas incoerências encontradas na interpretação do perito de local e com as anotações que acabo de apresentar, as referidas descrições no laudo, por si só, descaracterizam o resultado obtido pelo perito de local", declara.

Diz que não é possível constatar o alinhamento das manchas de sangue no peito do pé em razão da movimentação do corpo. "O perito, em nenhum momento, questionou a porta estar aberta, a não ser para, erroneamente, informar que o disparo ocorreu dentro do banheiro e o disparo ter sido dado em uma posição, sem deixar qualquer vestígio de gotas de sangue, além do estojo do projétil ter sido encontrado fora da área do banheiro”, conclui.
 
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